domingo, 30 de março de 2008

A CRISE DO PARADIGMA DOMINANTE E DA SUBJETIVIDADE: principais limitações e desafios à Pesquisa

  1. Vilmar Alves Pereira[1]

    O mal-estar na modernidade é a expressão psíquica do Contra-Iluminismo atual. Ele se traduz na rejeição global de todo o projeto iluminista (ROUANET 2003. p. 97).

    RESUMO

    Este ensaio tem a pretensão de localizar algumas demarcações no que concerne a chamada crise do paradigma dominante. Aponta também para algumas limitações desse modelo na atualidade principalmente quando temos por foco a construção de novos referenciais pautados numa outra ética. Finalmente aponta algumas exigências para pensarmos a pesquisa na atualidade.


    Uma primeira consideração pertinente consiste em constatar que o modelo no qual os nossos conceitos e práticas se sustentavam está passando por uma profunda crise; uma segunda consideração, consiste na percepção de que a referida crise não repousa em aspectos pontuais, ao contrário, é uma crise profunda e esta diretamente relacionada com crise de princípios que deram sustentação à racionalidade ocidental. Já não é mais novidade, a afirmação de que a modernidade está em crise, que o conceito sujeito e pesquisa também se encontram em crise por que foram construídos dentro do modelo metafísico.

    O paradigma metafísico que acreditou ser portador de sentido na busca dos fins últimos do homem encontra-se agora desencantado porque as essências por ele indicadas como verdades podem e são no contexto atual relativizadas. Não havendo mais esse berço de verdades e teleologias seguras, todos os conceitos pensados, que serviram de ancora para a metafísica ao serem reavaliados apresentam-nos diversas fragilidades como apresentam Nietzsche e Adorno.

    No entendimento de (HABERMAS, 1990, p.43), essas fragilidades começam já no interior da modernidade a serem percebidas. Em sua opinião, o pensamento metafísico vigente até Hegel está coadunado com esse pensamento da identidade consumado por uma filosofia da consciência. No entanto, para Habermas, esse pensamento já é posto em questão pelo novo tipo de racionalidade metódica e pelas formas de experimentação que se impõe ainda no século XVII; entende que outras fragilidades, se manifestam com a emergência das ciências histórico-hermenêuticas (novas formas de interpretações) que trazem em seu bojo novas reivindicações, principalmente a de que uma consciência histórica não admite mais aquelas dimensões de finitude tão bem desenvolvidas e apontadas pelo idealismo; outro fator importante apontado por Habermas é que a partir das práticas e dos processos de objetivação que se inserem inclusive nas formas de relacionamento há o aparecimento e a necessidade de um deslocamento da filosofia da consciência para a filosofia da linguagem (mudança da valorização da razão para a linguagem – novas formas de comunicação) E por fim Habermas destaca mais uma necessidade: a do agir comunicativo a partir dos contextos cotidianos negados pela modelo metafísico.

    A crise da modernidade está associada diretamente à crise da metafísica e por conseqüência a crise dos fundamentos modernos que adentraram em nossa forma de vida. Esses fundamentos dizem respeito aos princípios logocêntricos, pedagógicos, econômicos, culturais, políticos e pedagógicos..que coroaram a modernidade como “novos tempos”, a partir dos quais seriam alcançados os grandes anseios da humanidade. É na verdade a crise de uma crença profunda em valores emancipatórios. As oposições a esse modelo surgiram no próprio interior da modernidade. É o caso de Rousseau que, no Discurso sobre as ciências e as artes, apresenta sérias suspeitas sobre os critérios nos quais a arte e a ciência estavam se fundamentando. Mas, ao apontarem qualquer tipo de oposição, os pensadores modernos ofereciam uma outra solução. Há uma espécie de télos (finalidade) intrínseco nos postulados da maioria dos pensadores modernos.

    Há também quem afirme que o paradigma metafísico errou por ignorar as condições humanas de produção e aplicação do conhecimento. Para Boaventura Souza Santos a crise deste paradigma dominante está diretamente vinculada a uma opção de um modelo que é o modelo das ciências exato disseminado e seguido na produção do conhecimento científico que invadiu e ditou regras de conduta nas mais diferentes esferas do agir cotidiano. Hilton Japiassu diz a mesma coisa em Nascimento e Morte das Ciências Humanas. Erramos quando optamos pela metodologia das ciências exatas e a aplicamos nas condições de vida humana.
    Adorno e Horkheimer também identificam essas lacunas da racionalidade ocidental na Dialética do Esclarecimento quando afirmam que desde o mito, que continha em seu bojo a necessidade de domínio da natureza, a racionalidade após ele implementada já nasce viciada. Ela prioriza sempre o domínio de modo que ela, ao invés de atingir a emancipação, se converte num novo mito. Webber vai apontar como equívoco, o uso de uma racionalidade estratégica com sentido a fins que criou as condições do próprio aprisionamento do homem que constrói para si a sua “gaiola de aço.” De certa forma, todos estão afirmando o que Marx já havia apontado: que a humanidade tomaria “o bonde errado da história,” priorizando elementos do capital e da técnica do que aspectos voltados pela melhoria da humanidade.

    A crise da modernidade e da metafísica está associada à crise de um paradigma que já apresenta várias anomalias como afirmava Thomas Khun e que a partir das mesmas, as demais conseqüências seriam a crise e a revolução que preparariam o surgimento de um novo paradigma.

    No que concerne à crise do sujeito, ela já está enunciada em Nietzsche e Adorno entre outros. Mas qual é o sujeito que está em crise? Na verdade, é esse sujeito que descrevemos até então como “ator principal” nas metanarrativas modernas. É o sujeito “transcendental” que ocupa em toda a modernidade o centro das questões tanto pedagógicas quanto epistemológicas. É o sujeito portador de sentido para si e para o mundo pela capacidade de representação como afirma Kant entre outros.

    Na verdade, apontar para o esquecimento desse sujeito (como afirma Adorno), significa pressupor a descrença nas concepções mais remotas que vinham desde Platão e que (na modernidade) acreditaram ter alcançado o seu ápice. O sujeito que estamos apontando para esquecimento é o sujeito que se constituiu com unidade racional e que, dessa forma, ocupou o centro de todos os processos sociais. É o sujeito concebido como unidade indivisível e portador de uma singularidade ímpar. É o sujeito objetificador criador de imagens do mundo através do malogro e do uso de uma racionalidade voltada a fins. É o sujeito metafórico e metafísico denunciado por Nietzsche.

    É o “subjectum” que pretendia reunir tudo em torno de si, mas, que ao operar com essa lógica, acabou por esquecendo o verdadeiro sentido do ser. É o sujeito pretensioso em ser o portador de sentido e de autocertificação da realidade. É sujeito do “cogito cartesiano” que opera com uma racionalidade calculista oriundo do método das ciências exatas. É o sujeito que, para se conservar, utiliza o poder e o malogro, como afirma Nietzsche. É aquele sujeito que acreditava ter em si as condições necessárias para indicar as teleologias da humanidade. É o sujeito seguro de si kantiano que visava à maioridade como superação de toda e qualquer dependência. É o sujeito que criou um discurso de natureza e de infância a fim de justificar os anseios de formação e emancipação de uma sociedade livre, igualitária e feliz. De certo modo criador de utopias e fonte de realização.

    O reconhecimento de que esse sujeito não está mais ancorado em um “porto seguro” não é uma novidade do século XXI; aliás, como entende Hermann juntamente com outros autores, esse processo de fragmentação começa a sinalizar bem mais cedo do que pensamos:

    a partir do século XIX, esse ponto ou objetivo fundamental, torna-se problemático, pois se estabelece uma contradição entre objetividade e subjetividade, entre personalidade e as condições sociais objetivas. Já no século XX, as análises inspiradas na filosofia de Horkheimer, Adorno, Heidegger e Foucault contribuem decisivamente para mostrar as dificuldades de constituição do sujeito autônomo (HERMANN, 1999, p.54).


    Que valores e desafios devemos considerar na construção de um novo paradigma de pesquisa?

    As leituras que estamos realizando apontam para a necessidade de um novo perfil profissional que consiga compreender e se adequar nesse cenário de crise e ruptura paradigmática. De certo modo apresentam novas exigências aos investigadores. A seguir listamos algumas competências e a habilidades que necessitamos construir no contexto hodierno que devem transcender o modelo embasado na racionalidade positivista:
    A redefinição da nossa posição como sujeitos portadores de sentido;
    · Buscar construir relações intersubjetivas (relação sujeito-sujeito) pautadas na noção de novos consensos e não da verticalidade e da coação;
    · O respeito pelas diferenças é um tema reivindicado por todos os autores;
    · Desenvolver a tolerância pelo outro com a exigência do respeito;
    · Promover uma inversão axiológica dessa perspectiva de alguém que dirige um olhar do centro em relação à periferia sempre repetindo a relação sujeito objeto;
    · A redefinição dos objetivos: buscar perceber se os meus objetivos não dão exclusividade ao fator financeiro dentro dessa lógica dominante.
    Defender a necessidade do humano que motivado é mais importante aliado na busca do novo;
    . Incentivar relações criativas. A criatividade é, sem dúvida, no século XXI o grande valor humano ainda não colonizado, capaz de levar a seus projetos à cenários de destaques e êxitos alcançados com honestidade;
    . Não suprimir valores culturais: O nosso mundo atual é plural. Todo o trabalho deve pautar suas ações no respeito e na valorização das identidades culturais de seus integrantes;
    . Ouvir as pessoas: saber escutar torna-se hoje uma das maiores exigência éticas. O outro sempre pode ser o meu colaborador desde que seja ouvido;
    . Capacidade de dialogar: No diálogo já existe uma ação. O diálogo enaltece as relações sociais criando espaço para a emersão de novos valores na comunidade onde estamos inseridos aumentando o nível de comprometimento autêntico; substituir a racionalidade estratégica pela racionalidade comunicativa como indica Habermas.
    . Diluir poderes: ter abertura e capacidade de trabalhar em equipe;
    . Partilhar os objetivos: todos os envolvidos no projeto devem saber que os fins de seu trabalho são significativos;
    . Trabalhar tendo como norte saberes como: confiabilidade, justiça, credibilidade, respeito pelos outros, respeito a si próprio, inovação e honestidade;
    . Ser idealista criativo não perder a capacidade de sonhar para além dos valores do consumo como única alternativa que a sociedade globalizada nos oferece.


    REFERÊNCIAS

    ADORNO, Theodor W. & HORKHEIMER. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
    BICCA, Luiz. Racionalidade Moderna e Subjetividade. São Paulo: Edições Loyola, 1997.
    FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na civilização. Trad. De José Otávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
    GADAMER Hans-G. Verdade e Método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Trad. Flávio Paulo Meurer. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
    GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Petrópolis 2000.
    GIACÓIA Junior Oswaldo. Sonhos e pesadelos da razão esclarecida: Nietzsche e a modernidade. Passo Fundo:UPF, 2005.
    HABERMAS Jürgen. Pensamento pós-metafísico. Trad. Flávio Beno Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2002.
    HERMANN, Nadja. Validade em Educação: intuições e problemas na recepção de Habermas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.
    PEREIRA, A. Vilmar. Epistemologia Pós-Moderna e a Educação. In: Revista Espaço Pedagógico. Passo Fundo: Ediupf, Junho de 1999.
    ROUANET, Sergio P. Mal-estar na Modernidade. 2.ed. São Paulo: companhia das letras, 2003.
    RORTY, Richard. A filosofia e o espelho da natureza. Lisboa: Dom Quixote, 1998.
    SANTOS, S. Boaventura. Em busca da cidadania global. Disponivel em: http://www.veraz.com.br/. 2003.
    Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (linha de pesquisa Filosofia e Educação) e Professor de Filosofia da Educação na Faculdade Anglo Americano de Caxias do Sul. Integrante do Grupo de Pesquisa CNPQ- da PUC-RS- Racionalidade e Formação. E-mail: vilmar1972@bol.com.br.

quinta-feira, 6 de março de 2008

TIPOS DE PESQUISA

TiposdePesquisa

Maria Adelia Teixeira Baffi Mestre em Educação - UFRJ Professora Titular - FE/UCP

O importante é que o pesquisador saiba usar os instrumentos adequados para encontrar respostas ao problema que ele tenha levantado.
No entanto são tantas as pessoas que me consultam através desta Home Page sobre este assunto, que resolvi acrescentar este capítulo. O que ocorre aqui parece ser aquele lema conhecido pelos estudiosos da dinâmica educacional: "se podemos complicar para que simplificar?" Pesquisa é o mesmo que busca ou procura. Pesquisar, portanto, é buscar ou procurar resposta para alguma coisa. Em se tratando de Ciência a pesquisa é a busca de solução a um problema que o alguém queira saber a resposta. Não gosto de dizer que se faz ciência, mas que se produz ciência através de uma pesquisa. Pesquisa é portanto o caminho para se chegar à ciência, ao conhecimento.
É na pesquisa que utilizaremos diferentes instrumentos para se chegar a uma resposta mais precisa. O instrumento ideal deverá ser estipulado pelo pesquisador para se atingir os resultados ideais. Num exemplo grosseiro eu não poderia procurar um tesouro numa praia cavando um buraco com uma picareta; eu precisaria de uma pá. Da mesma forma eu não poderia fazer um buraco no cimento com uma pá; eu precisaria de uma picareta. Por isso a importância de se definir o tipo de pesquisa e da escolha do instrumental ideal a ser utilizado.
A Ciência, através da evolução de seus conceitos, está dividida por áreas do conhecimento. Assim, hoje temos conhecimento das Ciências Humanas, Sociais, Biológicas, Exatas, entre outras. Mesmo estas divisões tem outras sub-divisões cuja definição varia segundo conceitos de muitos autores. As Ciências Sociais, por exemplo, pode ser dividida em Direito, História, Sociologia etc.
Tentando descomplicar prefiro definir os tipos de pesquisa desta forma:
Pesquisa Experimental: É toda pesquisa que envolve algum tipo de experimento. Exemplo: Pinga-se uma gota de ácido numa placa de metal para observar o resultado.
Pesquisa Exploratória: É toda pesquisa que busca constatar algo num organismo ou num fenômeno. Exemplo: Saber como os peixes respiram.
Pesquisa Social: É toda pesquisa que busca respostas de um grupo social. Exemplo: Saber quais os hábitos alimentares de uma comunidade específica.
Pesquisa Histórica: É toda pesquisa que estuda o passado. Exemplo: Saber de que forma se deu a Proclamação da República brasileira.
Pesquisa Teórica: É toda pesquisa que analisa uma determinada teoria. Exemplo: Saber o que é a Neutralidade Científica.
Uma das preocupações básicas dos pesquisadores, relacionada com as questões metodológicas de suas pesquisas, é a explicação sobre as características específicas dos procedimentos adequados, para a realização da pesquisa proposta. Assim sendo, este estudo, que pretende ser apenas uma breve introdução à referida questão, tem o objetivo de sintetizar algumas características de modalidades de pesquisa, tendo como referência textos de diferentes autores.
Segundo Demo (1994 e 2000), podemos distinguir, pelo menos, quatro gêneros de pesquisa, mas tendo em conta que nenhum tipo de pesquisa é auto-suficiente, pois "na prática, mesclamos todos acentuando mais este ou aquele tipo de pesquisa" (2000, p. 22).
1. Pesquisa teórica - Trata-se da pesquisa que é "dedicada a reconstruir teoria, conceitos, idéias, ideologias, polêmicas, tendo em vista, em termos imediatos, aprimorar fundamentos teóricos" (Demo, 2000, p. 20). Esse tipo de pesquisa é orientada no sentido de re-construir teorias, quadros de referência, condições explicativas da realidade, polêmicas e discussões pertinentes. A pesquisa teórica não implica imediata intervenção na realidade, mas nem por isso deixa de ser importante, pois seu papel é decisivo na criação de condições para a intervenção. "O conhecimento teórico adequado acarreta rigor conceitual, análise acurada, desempenho lógico, argumentação diversificada, capacidade explicativa" (1994, p. 36).
2. Pesquisa metodológica - Refere-se ao tipo de pesquisa voltada para a inquirição de métodos e procedimentos adotados como científicos. "Faz parte da pesquisa metodológica o estudo dos paradigmas, as crises da ciência, os métodos e as técnicas dominantes da produção científica" (Demo, 1994, p. 37).
3. Pesquisa empírica - É a pesquisa dedicada ao tratamento da "face empírica e fatual da realidade; produz e analisa dados, procedendo sempre pela via do controle empírico e fatual" (Demo, 2000, p. 21). A valorização desse tipo de pesquisa é pela "possibilidade que oferece de maior concretude às argumentações, por mais tênue que possa ser a base fatual. O significado dos dados empíricos depende do referencial teórico, mas estes dados agregam impacto pertinente, sobretudo no sentido de facilitarem a aproximação prática" (Demo, 1994, p. 37).
4. Pesquisa prática - Trata-se da pesquisa "ligada à práxis, ou seja, à prática histórica em termos de conhecimento científico para fins explícitos de intervenção; não esconde a ideologia, mas sem perder ó rigor metodológico". Alguns métodos qualitativos seguem esta direção, como por exemplo, pesquisa participante, pesquisa-ação, onde via de regra, o pesquisador faz a devolução dos dados à comunidade estudada para as possíveis intervenções (Demo, 2000, p. 22).
Gil (2001), assim como Demo, também apresenta uma classificação das pesquisa, porém adota o a seguinte referencial: classificação das pesquisas com base em seus objetivos e classificação com base nos procedimentos técnicos adotados.
Classificação com base nos objetivos - três grandes grupos: pesquisas exploratórias, pesquisas descritivas e pesquisas explicativas.
Classificação com base nos procedimentos técnicos adotados (pois, para analisar os fatos do ponto de vista empírico, para confrontar a visão teórica com os dados da realidade, é necessário traçar o modelo conceitual e também o operatório): pesquisa bibliográfica, pesquisa documental, pesquisa experimental, pesquisa ex-pos-facto, levantamento, estudo de caso e pesquisa-ação. Santos (1999) acrescenta à classificação apresentada por Gil, destacando a caracterização das pesquisas segundo as fontes de informação, ou seja, pesquisa de campo, pesquisa de laboratório e pesquisa bibliográfica. REFERÊNCIAS: DEMO, Pedro. Pesquisa e construção do conhecimento: metodologia científica no caminho de Habermas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.
________. Metodologia do conhecimento científico. São Paulo: Atlas, 2000. GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1994. SANTOS, Antonio Raimundo. Metodologia científica: a construção do conhecimento. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

ATITUDE ÉTICA: pensar faz bem!

Vilmar Alves Pereira[1]

No contexto atual, onde a lógica do “pensamento único” prepondera, penso que é interessante perceber que as possíveis saídas dessa aporia[2] não se encontram distantes de nós. Para isso basta tomarmos uma atitude ética: pensar.

Tenho observado que o nosso cotidiano nos reserva pouquíssimos minutos para essa atividade. Ao invés de pensar, agimos. Essa ação, na maioria das vezes é induzida. Isso ocorre até mesmo quando não nos damos conta, vejamos: seguidamente temos a sensação que nossa ação funciona como as placas: pare ande e consuma! Nesse sentido, somos envolvidos por aquilo que o filósofo Adorno chamou de fascínio provocado pela Indústria Cultural[3]. Em seu entender, a referida indústria cria até mesmo o nosso gosto.

Penso que tudo isso poderia ser diferente se ousássemos utilizar uma grande ferramenta que todos possuímos: o pensamento. É cada vez mais notável a ausência da reflexão nas condutas humanas. Penso que o ser humano não pode resumir-se somente nisso: um ser que age de acordo com aquilo que os outros almejam. Desse modo, é urgente e necessário que comecemos a pensar. Aliás, nos diz a filosofia que nós “somos do tamanho daquilo que pensamos”. Essa constatação nos sugere que podemos sim transcender essa “cultura” dos “Big Brothers” que preconiza em suas máximas apenas o estético ao invés do ético.

Se tomarmos essa atitude ética de pensar, perceberemos o quanto bem estaremos fazendo para nós mesmos, reservando assim, o direito de nos posicionarmos, de termos expectativas promissoras para o futuro e de vislumbrarmos além do horizonte, garantindo desse modo, um espaço privilegiado de autonomia.

O exercício da reflexão às vezes nos inquieta, mas também “higieniza” nossas mentes e nos desafia a sermos acima de tudo, humanos, a partir do reconhecimento que não estamos sozinhos e de que necessitamos do outro para atingirmos nossos objetivos.

Procure fazer o exercício de tirar alguns minutos para sua reflexão cotidiana e verás que pensar faz bem! Assim sua atitude é ética porque está embasada na “ética do cuidado de si”. Esta nova dimensão já estava presente na antiguidade, mas hoje está sendo resgatada por muitos pensadores que postulam a necessidade do cuidado. Cuide-se: utilize o pensamento para sua melhora e garantia de sua autonomia...
[1] Professor de Filosofia da Educação na Faculdade Anglo Americano de Caxias do Sul; Doutor em Filosofia da Educação pela UFRGS. E-mail: vilmar1972@bol.com.br.
[2] Termo utilizado pelo filósofo iluminista Immaneul Kant (1724-1804) no sentido de indicar uma espécie de “beco sem saída”.
[3] Termo Filosofia cunhado por Adorno referindo-se a maneira que os meios de comunicação interferem em nossa forma de vida manipulando e interferindo na produção de sentidos.

ATITUDE ÉTICA: é possível agir com fé e com a razão ao mesmo tempo?

Vilmar Alves Pereira[1]

O nosso assunto dessa semana sem dúvida alguma é bastante polêmico. Há pessoas que me dizem que é melhor nem tocarmos nele. Mas como somos seres que possuímos a capacidade de pensar, seria insano não utilizar dessa categoria para refletir sobre a temática. Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer que esta questão fé e razão não é um debate atual. Os medievais já se ocupavam do assunto.

No entanto, por ser pertinente é comum que nos deparemos ainda hoje com esse tipo de questão. Com freqüência, quando alguém sofre um acidente fatal e na dor e desespero que abate toda a família é comum ouvirmos expressões como: ”foi Deus que quis assim! Ou era a hora dele! Ou, foi o seu destino.”

É comum que inconformada qualquer pessoa procure encontrar uma explicação para o ocorrido tentando amenizar a dor que está passando ou até mesmo entendê-la. Penso que é nesses casos que a fé aparece como um aporte com efeito anestésico. No entanto o que muitas vezes vemos é uma ausência profunda da razão. Se procurarmos estabelecer algumas questões pela esfera da razão, veremos que se aproximam mais de um cunho de veracidade e não transferimos para Deus ou para o destino a culpa da ocorrência. Utilizando da razão perguntamos: a que horas ocorreu o acidente? Em que local? Qual a velocidade que o veiculo trafegava? O motorista estava em boas condições? Havia descansado? Qual era a sua idade? Costumava ingerir bebida alcoólica? Era uma pessoa comedida no transito? A rodovia e as condições de trafegabilidade eram boas?

Em certas ocasiões quando fazemos esse tipo de questões, começam aparecer outras respostas mais autenticas e duras para os motivos do acidente. Apenas estou exemplificando para abrir esta polêmica inicial.

A razão e a fé permitem ao ser humano verdadeiros exercícios. Por um lado a fé vem para saciar aquelas dimensões que a razão não explica. A fé permite ao homem um salto na direção de um transcendente que lhe escapa. Portanto a fé permite o homem de crença segurança e saciedade das incógnitas que ele não consegue resolver. Eu admiro muito os homens de fé. Admiro o esforço que fazem em justificar a sua conduta em razões desconhecidas. Muitos estampam em sua face uma manifestação de um contentamento profundo pela opção fé que fizeram. São homens que não depositam na materialidade toda a sua confiança.

Mas como a razão pode contribuir com esses homens de fé? Um exemplo claro que temos em nossa região é a obra do saudoso Pe. Galiotto Deus não é Estúpido. Uma obra impregnada do sentido e do usa da razão que contribui para o esclarecimento da fé. Quando eu li esta obra tive a sensação que nela razão e fé se intercambiam, fazendo emergir uma fé esclarecida. Aqueles que a leram de forma preconceituosa não conseguiram identificar na obra distorções do catolicismo vigente. Respeitando essas posturas antagônicas identifiquei na obra uma espécie de fé racionada, pois permite que nos perguntemos em diversos momentos seria Deus estúpido, por exemplo, em ter criado o homem e afirmado: “Crescei e multiplicai” e logo após, condenar todo o ato de sexualidade como pecado. Num outro capítulo a posição que a mulher ocupa na igreja, nos permite identificar o quanto à mulher foi discriminada na tradição ocidental e como Maria teria sido a primeira grande sacerdotiza.

Não quero entrar aqui no mérito de questões teológicas, o que estou sugerindo é uma atitude ética ao amigo leitor: questione a sua fé! Utilize da razão para buscar entender se faz sentido o que você acredita. Aposto que em muitos casos você vai se sentir muito bem por que aumentou sua convicção e sua confiança em Deus; em outros vai identificar como as religiões com o desejo de nos indicar “o caminho certo “ acabam impondo concepções distorcidas da divindade impondo um modelo que quem crê não questiono. Lhe desejo boas reflexões e que você seja livre para acreditar em Deus a ou nos deuses a luz da razão. Quem sabe isto lhe fará muito bem. E como atitude ética lhe sugiro: experimente ou discorde de mim, me envie um e-mail, pois afinal você é um ser racional e livre e como dizia o filósofo Sartre seja livre para escolher pois “somos hoje o resultado das nossas escolhas!”.




















[1]Professor de na Faculdade Anglo Americano de Caxias do Sul; doutorando em Filosofia da Educação pela UFRGS. E-mail: vilmar1972@bol.com.br.

ATITUDE ÉTICA: enfrentando a idéia de normalidade

Vilmar Alves Pereira[1]

Hoje eu quero conversar contigo, caro leitor sobre a idéia de normalidade. É gozado como em algum tempo e lugar, algum ser privilegiado deve ter incutido em nós a idéia de que a maioria de nossas atitudes está em consonância com uma noção de normalidade que entendo ser problemática.

Se observarmos em nosso cotidiano, veremos que, vinculada a essa idéia de normalidade também está a ausência tanto da ética quanto da capacidade de reflexão. Assim por exemplo, para alguns é normal ao passar a catraca não cumprimentar o cobrador; para outros é normal não ceder o lugar no trânsito quando uma pessoa sinaliza pedindo para retornar a pista principal quando está com seu carro estacionado; já para outros é normal ao sentar num estabelecimento público ou num banco de ônibus não estabelecer qualquer tipo de diálogo, pois o outro é um estranho; para outros é normal o aumento de combustível por se tratar do Brasil; para outros, é normal atender as pessoas de acordo como elas se encontram vestidas; também já me disseram que é normal, alguém tratar as pessoas de acordo com o que elas parecem ser e não pelo que elas são; Para alguns é normal ficar resmungando quando ao adentrar em um estabelecimento bancário e ver um idoso receber tratamento prioritário; para outros é normal em sua compreensão o fato de que alguns nascem para mandar e outros para obedecer; Já para outros é normal que no carnaval que você pense que no carnaval tudo é permitido inclusive sair com mais de um parceiro.

Vocês já pararam para pensar que por detrás da normalidade existe a falta de educação e de respeito no caso do cobrador; falta de espírito solidário, no caso do motorista que deseja retornar a via principal; falta de capacidade de diálogo, no caso da pessoa que está sentada ao nosso lado; falta de condições mínimas de questionar, do aumento abusivo e gritante aos nossos olhos, no caso dos preços de combustíveis entre outros produtos; a falta de respeito pelas diferenças, no caso do tratamento de acordo com o que você está vestido e de quem você parece ser ou cargo que ocupa; falta de educação e respeito pelos nossos idosos pela preferência nos estabelecimentos públicos. Falta de coragem quando aceitamos de forma submissa essa premissa de alguns nascem para mandar e outros para obedecer. Falta de respeito pela dignidade humana com essa noção de permissividade em algumas festas como no carnaval.

Se “somos do tamanho daquilo que pensamos” como ponderei no artigo anterior, é mister, que adotemos uma atitude ética no sentido de questionar essas idéias de normalidade. É claro que emergirão algumas resistências e ouviremos expressões de que: “sempre foi assim e sempre será”. Eu me assusto com essa noção de permanência, num contexto onde tudo é efêmero. Podemos romper através de nossa postura e atitude este pensamento pequeno de que “tudo é normal”. As grandes invenções surgiram de pessoas que souberam romper com a normalidade. Experimente você mesmo, rompa sem agredir com modelos pré-estabelecidos.

Eu costumo fazer uma brincadeira com meus alunos quando adentram na Faculdade, e, ao invés de ser normal que todos sentem um atrás do outro, enxergando seu colega pelas costas, sugiro que sentemos em círculo. E são incontáveis os resultados dessa pequena ruptura: aumento de diálogo, maior transparência, melhor comunicação, manifestações mais espontâneas, participação mais ativa e melhor condições para um conflito de idéias sadio.

Por isso, mesmo que seja normal discordar de uma matéria lida e não se manifestar te desafio: me envie um e-mail dizendo com o que concorda e com o que discorda desse humilde texto: vamos tentar!
[1] Professor de na Faculdade Anglo Americano de Caxias do Sul; Doutor em Filosofia da Educação pela UFRGS. E-mail: vilmar1972@bol.com.br..

ATITUDE ÉTICA: como lidar com razão e emoção no trabalho

Vilmar Alves Pereira[1]

Hoje eu quero conversar contigo sobrre uma situação que nos afeta com muita freqüência: a questão de levar ou não sentimentos para o seu local de trabalho. Vou defender aqui a idéia de que a tradição ocidental nos dividiu desde Platão. A conseqüência dessa divisão foi uma compreensão de que o homem que utiliza a razão é o que age corretamente em detrimento do homem como ser de emoção.

Esse discurso adentrou no interior de nossa tradição e sempre priorizou o homem como um ser de razão como bem sucedido, mesmo que para isso fosse um tanto frio. Já no século XXI, temos então um modelo de trabalho baseado numa racionalidade, denominada Por Wagner Siqueira Pinto, de instrumental estratégica “ação orientada para o alcance de metas técnicas ou de finalidades ligadas a interesses econômicos ou de poder social, através da maximização dos recursos disponíveis. (SERVA, 1997b, p.22). Segundo esse modelo o funcionário deve desprender todo o seu esforço em cumprir uma função (daí a expressão funcionário). Essa função, na maioria das vezes preconiza resultados. Nessa racionalidade você é medido por aquilo que produz. Não interessa ao seu gerente ou chefe quem você é, que problemas você está enfrentando, de que você gosta, Quantos filhos você tem, quem você ama e o que você gostaria de fazer na empresa. O que importa é que você atinja sua meta. Esse modelo de gestão não permite que você externe qualquer tipo de emoção.

Mas como já estamos no século, o pensador Wagner Siqueira Pinto, com base no pensamento do filósofo alemão Habermas, propõe um modelo de gestão muito mais coerente com o ser humano. Ele denomina de racionalidade substantiva onde a ação é: “orientada para a auto-realização, na dimensão individual, compreendida como concretização de potencialidade e satisfação, e para o entendimento, na dimensão grupal, nas direções das responsabilidades e satisfação sociais (SERVA, 1997b,p.22). A racionalidade que fundamenta essa ação é substantiva/comunicativa”.

A dedução mais lógica e clara é que necessitamos sim dos resultados numa organização. No entanto, qual é custo que tenho para obter tais resultados. Muitas empresas já estão tendo: alto índice de stress no trabalho, falta de comunicação nas organizações, pressão demasiada por metas e funcionários doentes, defeitos na produtividade.

Penso que isso é muito pouco para o estágio de evolução que chegamos. A racionalidade comunicativa substantiva lhe sugere, caro leitor que a empresa quer saber quem você é e o que gosta de fazer e também deseja que você se realize naquilo que faz. Neste modelo de gestão existe espaço para a emoção sim. Neste caso, já há um bom tempo, algumas empresas com visão mais alargada desenvolvem estratégias por uma melhor qualidade de vida do colaborador.

Nessas estratégias, além de ginástica laboral, as pessoas são tratadas como seres humanos e não meras peças na busca de resultados a qualquer custo. Essas estratégias apontam sempre para uma convivência norteada pelo diálogo franco e pelo respeito às diferenças.

Sugiro a você que desenvolve alguma atividade ou que nesse momento se encontra coordenando algum grupo a seguinte reflexão: aquilo que estou fazendo, se baseia no modelo de uma racionalidade fria e calculista ou permite que além de um resultado existam pessoas que tem sentimentos, que necessitam de uma palavra de respeito e de consideração? Sou apenas mais um número nessa engrenagem? Será que podemos nos resumir somente nisso? De que adianta ganhar bastante dinheiro e ser detestado pelos meus colaboradores? Ou, como é prazeroso atingir resultados ao lado de pessoas realizadas que gostam daquilo que desenvolvem....Se já não começou, lembre-se sempre: a atitude ética só depende de você...


[1] Professor de Filosofia na Faculdade Anglo Americano de Caxias do Sul; Doutor em Filosofia da Educação pela UFRGS. E-mail: vilmar1972@bol.com.br..

ATITUDE ÉTICA: enfrentando os mitos na empresa

Vilmar Alves Pereira[1]

Hoje eu quero conversar com você caro leitor sobre os mitos. Você já dever estar pensando: “lá vem coisa da antiguidade!” O que quero defender aqui é que os mitos não fazem parte apenas da antiguidade, mas que estão presentes de forma muito explicita em nosso cotidiano. Nós é que não nos damos conta de suas influências? Ma s o que são os mitos?

Os mitos foram e são representações criadas em determinados tempos e lugares com o intuito de contar ou explicar alguma verdade mediante a algo não esclarecido. Suas características são: Surgem como verdades – não lógicas, mas intuídas; utilizam-se da fantasia e da imaginação; ao invés de explicar a realidade, pretendem acomodar e tranqüilizar o ser humano a ela; também apelam ao sobrenatural; ao transcendente e ao metafísico; Ex: “foi Deus que quis assim” ou “foi o destino” mediante a uma situação problema; pretendem explicar sempre a origem de algo.

Como já afirmei antes do homem utilizar a capacidade de pensar ele era apenas um ser de crenças. Nesse sentido, dependia dos mitos para explicar os fenômenos que ocorriam em seu cotidiano. Hoje em pleno século XXI os mitos ainda mantêm enorme capacidade de influências nas condutas humanas. Ou seja, ainda são identificadas verdades míticas que baseiam- se no uso da fantasia, da imaginação para acomodar e tranqüilizar as pessoas. Nesse momento, você já deve estar pensando e fazendo associações sobre quais desses mitos lhe afetam. Gostaria de citar apenas alguns nesse nosso curto espaço;

Mito da felicidade: “você é feliz à medida que consome”. Numa sociedade rica em matéria e pobre de espírito não é estranho à ampla divulgação dessa noção. As propagandas divulgadas na mídia aproximam cotidianamente a noção de consumo a noção de pessoa realizada e feliz. Será que felicidade é só isso ou por saber que todos os homens almejam a felicidade a lógica do consumo aproveita desse potencial para manipulá-lo miticamente?

Mito do poder: quem de vocês já não ouviu aquela poderosa frase: “por acaso você sabe com quem está falando?” São pessoas que carregam consigo uma visão mítica que o poder emana pela função que elas ocupam. O filósofo Nietzsche afirmava com muita veemência de que “o poder é uma característica de um fraco que percebendo em si esta fraqueza e sabendo que os outros também a possuem, utiliza do poder para se tornar forte diante dos outros”.

Mito da liderança: “alguns nascem para serem líderes outros não.” Essa noção é muito antiga. Ela já vem desde Aristóteles que afirmava que a natureza das pessoas era de acordo com sua casta social. Por isso muitos reproduziram o mito de algumas famílias ou classes nascem com esse potencial de liderança. E os outros, nunca vão conseguir ser lideres? Você não pode aprender a liderança? Não existem pesquisas e estratégias que lhe estimulam a ser líder?

Mito da qualidade total: lembro-me que as primeiras vezes que ouvi alguém discorrer sobre qualidade total era uma visão perfeita e mítica. Dava a impressão que jamais erraria. Hoje avaliando os excelentes progressos desse modelo de gestão, também é possível identificar alguns possíveis equívocos. Isto porque uma empresa é formada por pessoas e como as pessoas são suscetíveis a erros, logo os modelos também podem errar.

Mito do empreendendorismo: este é um dos mitos da empresa atual. Todos querem ser empreendedor. Quando vemos um gestor bem sucedido independente de ele ter ou não qualificação na sua área já o associamos com a idéia de uma pessoa empreendedora e bem sucedida.

“Mito de que o gerente não erra: inúmeras vezes já ouvi esta expressão: Gerente não erra no máximo se engana”.

O que me permite chamar a sua atenção em todos esses e outros milhares de mitos que interferem em nossa conduta diária, é o fato de que na maioria deles nos hipervalorizamos o ser humano, colocando-o numa condição similar a dos deuses dos mitos antigos. Tratamos o humano como ser sobrenatural. Nesse sentido, estamos fantasiando a realidade.

Proponho ao amigo leitor o exercício de que procure desmistificar à realidade. Então você verá que por trás dessas roupagens míticas que utilizamos se encontra um ser humano, às vezes fraco, carente de ajuda, que tem as mesmas necessidades fisiológicas de todos os mortais. Associe a ele um dose de humildade e verás que essa fantasia mítica não se sustenta. O que vale mesmo a pena é sermos autênticos, verdadeiros, podermos olhar no olho do outro e enfrentarmos a realidade com muito esforço e teremos conquistas que não serão míticas mas prazerosas carregadas de um sentido de luta. Pense nisso e pratique essa nova atitude ética.
[1]Professor de Filosofia na Faculdade Anglo Americano de Caxias do Sul ; Doutor em Filosofia da Educação pela UFRGS. E-mail: vilmar1972@bol.com.br.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

ATITUDE ÉTICA: COMO LIDAR COM NOSSAS PERDAS!

Vilmar Alves Pereira[1]

Olá caro leitor, diante dos episódios dos acidentes aéreos brasileiros, gostaria conversar contigo sobre um tema que na maioria das vezes não gostamos de encarar: nossas perdas. Aliás, muitos de nós, não gostamos nem de pensar em perder algo ou alguém. Essa atitude demonstra que não estamos preparados para enfrentar nossas limitações. Afinal somos seres finitos e mortais, mas almejamos transcender finitude e sermos imortais.
Conta à lenda que havia no fundo do mar um grande cardume de peixes belíssimos e imortais que contemplavam as águas mais cristalinas daquela região. Um dia um deles viu um buraco e resolveu ir verificar o que tinha nele. Andou muito até conseguir chegar ao outro lado. Chegando lá, ficou maravilhado com o que viu. Contemplou a natureza na sua mais vasta expressividade. Voltou ao encontro dos amigos e contou o que havia descoberto. Também aproveitou para convidá-los a ir viver nesse local. Quando estavam de saída um deles os lembrou: o criador nos fez assim tão belos e nós vamos abandoná-lo, sem sequer falar com ele! E foram ao encontro do criador. Este após ouvi-los, concordou com eles, mas asseverou-lhes: vocês realmente podem gozar de tudo o que lá existe, mas há apenas um impeditivo: a partir do momento que migrarem para lá perderão a imortalidade. Vocês querem enfrentar esse desafio? E todos disseram sim. Romperam com a condição de imortais e se transformaram, após migrarem, numa tribo indígena que contempla e vive uma das relações mais belas relações com a natureza no interior da Amazônia.
Assim somos nós, muitas vezes as nossas perdas quando entendidas, nos trazem inúmeros amadurecimentos. Mas, a perda não pode ser vista como fracasso e sim como concretizações. Em relação à morte, por exemplo, o filosofo Martin Heidegger afirmava que ela deve ser vista como concretização de um projeto. Em seu entender, a cada dia concretizamos parte de um projeto. Disso resulta que o envelhecimento é um fator positivo, pois possibilita-nos transcendermos cotidianamente.
Eu acredito, que ao perdemos a imortalidade e sermos mortais existem coisas muito prazerosas que só um mortal pode concretizá-la como, por exemplo: podermos externar as pessoas que amamos o quanto elas são importantes para nós; trocar afeto com aqueles que nos são caros; desejar o bem aos nossos amigos e também aos inimigos; se emocionar com o sorriso de uma criança; estender a mão ao nosso irmão que sofre; tomar uma sopa de capeleti com a família numa noite fria de inverno; tomar um sorvete com o nosso amor como se fosse a primeira vez, aproveitar cada instante dessa nossa passagem como se fosse única e primeira.
O filósofo Heráclito de Éfeso nos ensinou que: “no mesmo rio, ninguém consegue tomar banho duas vezes”. Daí criou a teoria, ainda na Grécia antiga, de que nada se repete e tudo passa. O meu conselho ao amigo leitor, é que não se frustre com a perda, mas aproveite cada instante para vê-la como aprendizado sobre algo. Conheço pessoas que quando perdem dinheiro ficam mais unidas e descobrem que o maior valor não está no dinheiro, mas no amor dedicado a pessoa que está próxima; quando perdem amigos aprendem a valorizar uma nova amizade; quando perdem status aprendem à riqueza do valor de uma grande amizade. Quando perdem a saúde aprendem a cuidar-se mais.
Que não levamos nada daqui isso é um fato. Aqueles que acreditam em alguma transcendência afirmam que “o que vai pesar em nossa balança é o pouco de amor que tivemos com o nosso semelhante.” Pense nisso e não caia no lamento diante das perdas, mas procure refletir o que realmente podemos aprender com elas.
[1] Professor de Filosofia Faculdade Anglo Americano de Caxias do Sul; doutorando em Filosofia da Educação pela UFRGS. E-mail: vilmar1972@bol.com.br.

sábado, 27 de outubro de 2007

TIPOS DE CONHECIMENTO

1- INTRODUÇÃO
Metodologia significa estudo dos métodos ou da forma, ou dos instrumentos necessários para a construção de uma pesquisa científica; é uma disciplina a serviço da Ciência. O conhecimento dos métodos que auxiliam na elaboração do trabalho científico. Metodologia adquire o nível de típica discussão teórica, inquirindo criticamente sobre as maneiras de se fazer ciência. Sendo algo instrumental, dos meios, não tem propriamente utilidade direta, mas é fundamental para a ‘utilidade’ da produção científica. A falta de preocupação metodológica leva à mediocridade fatal (DEMO, 1995, p. 12).
A atividade da pesquisa necessita de método, mesmo que este seja instrumental, a fim de orientar o pesquisador à construção de quadros teóricos do conhecimento. Demo afirma que “esse instrumento [o método] é indispensável sob vários motivos: de um lado, para transmitir à atividade marcas de racionalidade, ordenação, otimizando o esforço; de outro, para garantir contra credulidades, generalizações apressadas, exigindo para tudo que se digam os respectivos argumentos; ainda, para permitir criatividade, ajudando a devassar novos horizontes” (1995, p. 12).
Na produção científica nem tudo o que se afirma ou se faz tem a mesma solidez. Nas teorias, por exemplo, podemos perceber que alguns enunciados possuem a tessitura de uma tese, significando posturas mais ou menos aceitas. Outros são apenas hipóteses, ou suposições aceitáveis, no sentido de poderem ser argumentadas. Mas há também pontos de partida sem maiores rigores comprobatórios, e mesmo gratuitos, já que não poderíamos arcar com o compromisso de elucidar definitivamente toda e qualquer afirmação (Demo, 1995, p. 12).
2 - CONHECIMENTO “O fenômeno do conhecimento humano é, sem dúvida, o maior milagre de nosso universo” (Popper, 1975, p. 7). Popper distingue dois tipos de conhecimento: o conhecimento constituído de um estado de consciência que apenas leva a reagir, e o conhecimento, no sentido objetivo constituído de problemas, teorias e argumentos. Para Khazraí o conhecimento surge Quando todas as vozes do pensamento científico se interagem nas tendências tumultuosas da afetividade, na sala de aula, no momento do estudo, no laboratório e abre frente aos nossos olhos novas perspectivas infinitas de reflexão, e faz voarem nossos espíritos no firmamento interminável da cognição e da emoção.
É nesse ponto que a ciência e o afeto se interagem para dar origem ao que nós chamamos de conhecimento (1983, p. 2). Essa é uma forma de conhecimento essencialmente científica, principalmente por ressaltar uma forma sistemática para obter conhecimento, e as discussões científicas, sala de aula, laboratório, são elementos fundamentalmente encontrados nas universidades, institutos de pesquisas etc. Vale ressaltar que o conhecimento pode ser obtido por diversas formas, ou seja, não apenas pelo método conhecimento científico. Assim, faremos a distinção entre as maneiras encontradas para se obter conhecimento e os tipos de conhecimento.
2.1 - Métodos para Obter Conhecimento.
Os métodos conhecidos para aquisição de conhecimentos, ou para compreender a realidade dos fatos, são: sentidos, raciocínio, tradição e autoridade.
2.1.1 - Sentidos• Tudo o que a visão, o audição, o gosto, o olfato, e o tato percebem é compreendido pelos sentidos. ‘Abdu’l-Bahá menciona que “esse foi o método usado pelos filósofos europeus, e era considerado como o método principal para se adquirir conhecimento” (1979, p. 238).
2.1.2 - RaciocínioÉ esse o método da compreensão. O pesquisador prova seus objetos de pesquisa pelo raciocínio, adere firmemente às provas lógicas; todos os argumentos são provenientes da observação, leituras, experiências anteriores. Provam-se fatos por argumentos lógicos. Depois de algum período de tempo, o observador revê as mudanças ocorridas no ambiente que o conduziu às primeiras conclusões e por argumentos lógicos negam as conclusões anteriores.
“Platão primeiro provou logicamente a imobilidade e o movimento do Sol, e mais tarde, provou por argumentos lógicos ser o Sol o centro estacionário em volta do qual a Terra se movia. Subseqüentemente, a teoria ptolemaica foi divulgada, vindo, assim, a ser esquecida a idéia de Platão, até que, afinal, um novo observador a ressuscitou. Todos os matemáticos, pois, dissentiram, embora dependessem de argumentos racionais” (‘Abdu’l-Bahá, 1975, p. 238).
Donde se conclui que esse é o método que mais permeia as pesquisas científicas. Os cientistas têm opiniões diferentes porque seus sistemas de valores não são unívocos. O pesquisador deve ter a liberdade para pesquisar suas idéias, seguindo regras, métodos e espírito crítico próprios.
2.1.3 - Tradição“Tampouco é perfeito este método, porque as tradições são compreendidas pelo, raciocínio. Já que o próprio raciocínio é sujeito ao erro, como pode-se dizer que não errará em interpretar o significado das tradições? É possível que se engane; não se pode atingir a certeza. É este o método dos teólogos” (‘Abdu’l-Bahá, 1975, p. 239). Também aprendemos por tradição a cura por meio de chás, e normalmente não é questionada a razão dos fatos; assim, podemos afirmar que o conhecimento obtido pelas tradições pode incorrer em dogmas. 2.1.4 - AutoridadeGil considera a “autoridade oriunda dos pais, professores que descrevem o mundo para as crianças. Governantes, líderes partidários, jornalistas e escritores definem normas e procedimentos que para eles são os mais adequados. E à medida que segmentos da população lhes dão crédito, esses conhecimentos são tidos como verdadeiros” (1994, p. 19-20).
Autoridade é uma palavra que fornece um sentido dicotômico. Pode ser entendida como um vocábulo referente àquele que exerce ou tem poder sobre outrem, ou àquele que domina um determinado campo do conhecimento. Embora o argumento da autoridade seja parceiro inevitável do científico, mesmo porque o cientista se atribui autoridade, é preciso limitar sua abrangência. Muitas vezes usamos como critério decisivo do científico a maior ou menor adequação ao nosso modo particular de ver o científico. Isso equivale a dizer que, se estivermos de acordo, será científico; do contrário, não. Tal colocação é um equívoco, em todos os sentidos. Se metodologicamente a atividade produz posturas diferentes, é ilógico e injusto rebaixar o ‘diferente’, só porque nos é adverso, ao ‘não-científico’ (Demo, 1995, p. 42-43).
Muitas vezes se procura citar os autores que representam maior autoridade em determinado ramo do conhecimento, em decorrência do respeito, do domínio do conhecimento. Também, por não compartilharmos de determinada idéia ou corrente filosófica não deveríamos desconsidera-las. Uma das limitações desse método é o pesquisador ficar restrito ao conhecimento da autoridade. “O apelo ao argumento da autoridade sempre aparece e pode mesmo ser o decisivo.
O apelo a ele não pode ser visto apenas como infantilismo científico, porque é condição normal social da atividade científica” (Demo, 1995, p. 42-43). 2.2 - Tipos de ConhecimentoNormalmente, os metodólogos [Gil, Trujillo Ferrari, Lakatos & Marconi] apresentam quatro classificação do conhecimento, a saber: popular, religioso, filosófico e científico. Iudícibus (1997b, p. 68), apresenta um quadro sintético desses conhecimentos:
Conhecimento Popular Conhecimento Religioso valorativo valorativo reflexico inspiracional (dogmático) assistemático verificável sistemático não-verificável falível infallível inexato exato Conhecimento Filosófico Conhecimento Científico valorativo explorativo racional (lógico) racional-contingencial sistemático assistemático não-verificável verificável infalível falível exato Aproximadamente exato.
2.2.1 - Conhecimento Popular
O conhecimento popular é assistemático e é conferido pela familiaridade que se tem com os objetos, geralmente é aquele conhecimento adquirido no meio familiar. “Esse conhecimento é resultado de suposições e de experiências pessoais. Portanto, e informação íntima, porém não sistematizada, desde que não foi suficientemente refletida para ser reduzida a uma formulação geral. De modo que tais experiências não podem ser transmitidas fácil e compreensivelmente de uma pessoa para outra. Assim, pelo conhecimento familiar, as pessoas sabem que água é um líquido; mas, não compreender como se origina e qual é a sua composição molecular, assunto que já corresponde ao domínio da ciência” (Trujillo Ferrari, 1982, p. 6).
No exemplo da água, dado por Trujillo Ferrari, é mencionado que não se pode compreender sua origem, acreditamos que nesse nível de conhecimento [popular] não há preocupação com a origem dos fatos de uma forma geral, visto que apresenta como características valorativas, assistemáticas, falível, inexato, entre outras.
2.2.2 - Conhecimento ReligiosoAs crenças religiosas costumam constituir fontes privilegiadas de conhecimento, e por se tratar do conhecimento do Ser superior, sobrepõem-se a qualquer outra forma. Bahá’u’llah, o fundador da “Fé Bahá’í”, afirma que: “A origem de toda erudição é o conhecimento de Deus - exaltada seja a Sua glória - e este só será atingido através do conhecimento de Seu Manifestante Divino” (1983, p. 175). De acordo com a visão “Bahá’í”, o verdadeiro conhecimento é alcançado quando se permite pesquisar sem preconceitos os livros sagrados que emanam dos manifestantes divinos, tais como Cristo, Moisés, Maomé, Buda Krishna, e outros. Analisando o conhecimento religioso pela comunidade científica apontaremos a definição de Trujillo Ferrari. O conhecimento religioso ou, mais propriamente dito, conhecimento teológico, implica na crença de que as verdades tratadas são infalíveis, por serem reveladas pelo sobrenatural. É um conhecimento sistemático do mundo como obra de um criador divino e cujas evidências não são verificadas.
Neste caso, a adesão do crente é um ato de fé. Enquanto que na ciência a verdade a ser atingida é falível e se sustenta em teorias que podem ser substituídas por outras mais efetivas ou válidas, o conhecimento religioso se apóia na doutrina que contém proposições sagradas (1982, p. 6). Khazraí, citando ‘Abdu’l-Bahá, afirma que “não há contradição entre a verdadeira religião e a ciência. Quando a religião se opõe à ciência, ela não passa de mera superstição: o que é contrario ao conhecimento é ignorância” (1987b, p. 28).
Quando houver acordo entre a ciência e a religião, a disputa entre o dogmatismo e o pragmatisno, empirismo e racionalismo o fim da disputa entre esses -ismos, possivelmente teremos cientistas menos materialistas e teólogos menos fanáticos.
2.2.3 - Conhecimento Filosófico. Em filosofia é permitido e usual colocar antecipadamente hipóteses que não podem ser submetidas ao crucial teste da observação. As hipóteses filosóficas baseiam-se na experiência; portanto, este conhecimento emerge da experiência e não da experimentação. Daí, a verificação dos enunciados filosóficos não serem confirmados nem refutados, o que não ocorre com as hipóteses dentro do campo de ciência (TRUJILLO FERRARI, 1982, p. 7).
A partir desse ponto de vista verifica-se que o conhecimento filosófico advém da observação - formulação de hipóteses - e a experimentação - verificação da hipótese. Gil considera que “os filósofos proporcionam importantes elementos para a compreensão do mundo. Em virtude de se fundamentar em procedimentos racional-especulativos, os ensinamentos dos filósofos têm sido considerados como dos mais válidos para proporcionar o adequado conhecimento do mundo” (1995, p. 20).
Vimos, assim, que o conhecimento filosófico vai da observação à experimentação, sendo, portanto, valorativo, racional, sistemático, não-verificável, infalível, exato. Iudícibus afirma que o conhecimento filosófico [...]“é aproximadamente exato (pelo menos nas ciências não-matemáticas), no sentido de que, por trabalhar com modelos, estes não têm a possibilidade de escolher todas as variáveis, principalmente nas ciências sociais” (1997, p. 68).
2.2.4 - Conhecimento Científico.
Esse tipo de conhecimento se distingue dos demais tipos apresentados, visto que oferece a verificação do fato pesquisado, é falível e sistemático. A ciência se preocupa em estabelecer as propriedades e os padrões interdependentes entre as propriedades, para construir as generalizações ou as leis. Não se duvida, entretanto, que muitas das disciplinas científicas existentes têm surgido das preocupações práticas da vida cotidiana, como a geometria dos problemas de medição e relevantamento topográfico nos campos; a mecânica de problemas apresentados pelas artes arquitetônicas; a biologia dos problemas humanos [...] (Trujillo Ferrari, 1982, p. 6).
A pesquisa científica deve ser orientada para remover barreiras e procurar resolver ou apresentar soluções para os problemas sociais, econômicos, políticos e científicos. Conforme Lakatos & Marconi, “a logicidade da ciência manifesta-se através de procedimentos e operações intelectuais que: • possibilitam a observação racional e controlam os fatos; • permitem a interpretação e a explicação adequada dos fenômenos; • contribuem para a verificação dos fenômenos, positivados pela experimentação; • fundamentam os princípios da generalização ou o estabelecimento dos princípios e das leis (1995, p.21). Para pesquisar ou elaborar um conhecimento científico, tornam-se necessário os seguintes pontos: • Construir o objeto de pesquisa; • Elaborar as hipóteses ou questões de pesquisa; • Traçar os objetivos para testar as hipóteses ou responder as questões elaboradas; • Apresentar as conclusões alcançadas. Conforme o exposto, o conhecimento científico é estruturado, limitado e utilizam-se modelos, verificáveis, falíveis, aproximadamente exatos, como foram caracterizados por Iudícibus. Concluímos que as verdades científicas são provisóriasPUBLICADO: Anais do VI Congresso Internacional de Gestão Estratégica de Custos/ Braga - Portugal.1999. Revista Brasileira de Contabilidade, n o 99. (Revista com Circulação no MERCOSUL).Autora: NÉLO, Ana Maria

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Senso moral e consciência moral

Convite à Filosofia
De Marilena Chaui
Ed. Ática, São Paulo, 2000.

Unidade 8
O mundo da prática

Capítulo 4
A existência ética


Muitas vezes, tomamos conhecimento de movimentos nacionais e internacionais de luta contra a fome. Ficamos sabendo que, em outros países e no nosso, milhares de pessoas, sobretudo crianças e velhos, morrem de penúria e inanição. Sentimos piedade. Sentimos indignação diante de tamanha injustiça (especialmente quando vemos o desperdício dos que não têm fome e vivem na abundância). Sentimos responsabilidade. Movidos pela solidariedade, participamos de campanhas contra a fome. Nossos sentimentos e nossas ações exprimem nosso senso moral.

Quantas vezes, levados por algum impulso incontrolável ou por alguma emoção forte (medo, orgulho, ambição, vaidade, covardia), fazemos alguma coisa de que, depois, sentimos vergonha, remorso, culpa. Gostaríamos de voltar atrás no tempo e agir de modo diferente. Esses sentimentos também exprimem nosso senso moral.

Em muitas ocasiões, ficamos contentes e emocionados diante de uma pessoa cujas palavras e ações manifestam honestidade, honradez, espírito de justiça, altruísmo, mesmo quando tudo isso lhe custa sacrifícios. Sentimos que há grandeza e dignidade nessa pessoa. Temos admiração por ela e desejamos imitá-la. Tais sentimentos e admiração também exprimem nosso senso moral.

Não raras vezes somos tomados pelo horror diante da violência: chacinas de seres humanos e animais, linchamentos, assassinatos brutais, estupros, genocídio, torturas e suplícios. Com freqüência, ficamos indignados ao saber que um inocente foi injustamente acusado e condenado, enquanto o verdadeiro culpado permanece impune. Sentimos cólera diante do cinismo dos mentirosos, dos que usam outras pessoas como instrumento para seus interesses e para conseguir vantagens às custas da boa-fé de outros. Todos esses sentimentos manifestam nosso senso moral.

Vivemos certas situações, ou sabemos que foram vividas por outros, como situações de extrema aflição e angústia. Assim, por exemplo, uma pessoa querida, com uma doença terminal, está viva apenas porque seu corpo está ligado a máquinas que a conservam. Suas dores são intoleráveis. Inconsciente, geme no sofrimento. Não seria melhor que descansasse em paz? Não seria preferível deixá-la morrer? Podemos desligar os aparelhos? Ou não temos o direito de fazê-lo? Que fazer? Qual a ação correta?

Uma jovem descobre que está grávida. Sente que seu corpo e seu espírito ainda não estão preparados para a gravidez. Sabe que seu parceiro, mesmo que deseje apoiá-la, é tão jovem e despreparado quanto ela e que ambos não terão como se responsabilizar plenamente pela gestação, pelo parto e pela criação de um filho. Ambos estão desorientados. Não sabem se poderão contar com o auxílio de suas famílias (se as tiverem).

Se ela for apenas estudante, terá que deixar a escola para trabalhar, a fim de pagar o parto e arcar com as despesas da criança. Sua vida e seu futuro mudarão para sempre. Se trabalha, sabe que perderá o emprego, porque vive numa sociedade onde os patrões discriminam as mulheres grávidas, sobretudo as solteiras. Receia não contar com os amigos. Ao mesmo tempo, porém, deseja a criança, sonha com ela, mas teme dar-lhe uma vida de miséria e ser injusta com quem não pediu para nascer. Pode fazer um aborto? Deve fazê-lo?

Um pai de família desempregado, com vários filhos pequenos e a esposa doente, recebe uma oferta de emprego, mas que exige que seja desonesto e cometa irregularidades que beneficiem seu patrão. Sabe que o trabalho lhe permitirá sustentar os filhos e pagar o tratamento da esposa. Pode aceitar o emprego, mesmo sabendo o que será exigido dele? Ou deve recusá-lo e ver os filhos com fome e a mulher morrendo?

Um rapaz namora, há tempos, uma moça de quem gosta muito e é por ela correspondido. Conhece uma outra. Apaixona-se perdidamente e é correspondido. Ama duas mulheres e ambas o amam. Pode ter dois amores simultâneos, ou estará traindo a ambos e a si mesmo? Deve magoar uma delas e a si mesmo, rompendo com uma para ficar com a outra? O amor exige uma única pessoa amada ou pode ser múltiplo? Que sentirão as duas mulheres, se ele lhes contar o que se passa? Ou deverá mentir para ambas? Que fazer? Se, enquanto está atormentado pela decisão, um conhecido o vê ora com uma das mulheres, ora com a outra e, conhecendo uma delas, deve contar a ela o que viu? Em nome da amizade, deve falar ou calar?

Uma mulher vê um roubo. Vê uma criança maltrapilha e esfomeada roubar frutas e pães numa mercearia. Sabe que o dono da mercearia está passando por muitas dificuldades e que o roubo fará diferença para ele. Mas também vê a miséria e a fome da criança. Deve denunciá-la, julgando que com isso a criança não se tornará um adulto ladrão e o proprietário da mercearia não terá prejuízo? Ou deverá silenciar, pois a criança corre o risco de receber punição excessiva, ser levada para a polícia, ser jogada novamente às ruas e, agora, revoltada, passar do furto ao homicídio? Que fazer?

Situações como essas – mais dramáticas ou menos dramáticas – surgem sempre em nossas vidas. Nossas dúvidas quanto à decisão a tomar não manifestam apenas nosso senso moral, mas também põem à prova nossa consciência moral, pois exigem que decidamos o que fazer, que justifiquemos para nós mesmos e para os outros as razões de nossas decisões e que assumamos todas as conseqüências delas, porque somos responsáveis por nossas opções.

Todos os exemplos mencionados indicam que o senso moral e a consciência moral referem-se a valores (justiça, honradez, espírito de sacrifício, integridade, generosidade), a sentimentos provocados pelos valores (admiração, vergonha, culpa, remorso, contentamento, cólera, amor, dúvida, medo) e a decisões que conduzem a ações com conseqüências para nós e para os outros. Embora os conteúdos dos valores variem, podemos notar que estão referidos a um valor mais profundo, mesmo que apenas subentendido: o bom ou o bem. Os sentimentos e as ações, nascidos de uma opção entre o bom e o mau ou entre o bem e o mal, também estão referidos a algo mais profundo e subentendido: nosso desejo de afastar a dor e o sofrimento e de alcançar a felicidade, seja por ficarmos contentes conosco mesmos, seja por recebermos a aprovação dos outros.

O senso e a consciência moral dizem respeito a valores, sentimentos, intenções, decisões e ações referidos ao bem e ao mal e ao desejo de felicidade. Dizem respeito às relações que mantemos com os outros e, portanto, nascem e existem como parte de nossa vida intersubjetiva.



Passos para a construção do projeto de pesquisa

Principais elementos do projeto de pesquisa[1]

Todo trabalho científico parte da elaboração de um projeto de pesquisa. O Projeto é uma das etapas componentes do processo de elaboração, execução e apresentação da pesquisa. Tem como prioridade demonstrar as atividades indispensáveis para o desenrolar da pesquisa, esclarecendo para o próprio pesquisador os rumos do estudo (o que pesquisar, como pesquisar, para que ou para quem pesquisar, quando e onde pesquisar). Além disso, um pesquisador precisa comunicar seus propósitos de pesquisa para que seja aceito na comunidade científica e para obter financiamento. Esse “meio de comunicação” reconhecido no mundo científico é o projeto de pesquisa. Os projetos são, obviamente, submetidos à leitura e apreciação de terceiros; como cada instituição financiadora tem um formato de projeto, a elaboração específica de apresentação do projeto pode variar.
Operacionalmente, na primeira página ou na folha de rosto, indica-se a entidade destinatária do projeto, o nome do projeto, o autor ou autores, o local e ano.
Os demais itens indispensáveis do projeto de pesquisa são:
l tema;
l problema;
l justificativa;
l hipótese ou questões norteadoras;
l objetivos;
l referencial teórico (marco ou base teórica);
l metodologia;
l cronograma de execução;
l orçamento;
l fonte financiadora;
l referências.


2 Tema

O Tema é a primeira etapa de elaboração de um projeto de pesquisa. Trata-se da definição do assunto que se quer estudar e investigar. O tema pode ser escolhido pelo aluno, no qual tenha maior interesse para enriquecimento do saber, obedecendo aos critérios de relevância, viabilidade e originalidade (no caso de doutorado). Neste sentido, o tema é amplo e consiste no assunto geral sobre a sua pesquisa.
O tema da pesquisa é definido quando se responde à pergunta: qual o assunto a ser explorado? A escolha do tema de pesquisa tem caráter pessoal, amplo, aberto às preocupações e indagações do pesquisador. Envolve um conjunto de juízos de valores dentro do campo que se pretende pesquisar.

A escolha de um tema de pesquisa nunca se dá no vazio, ela é sempre influenciada pelos fatores internos correspondentes ao próprio investigador (curio­sidade, imaginação, experiência, filosofia) e por fatores externos à realidade circun­dante ou ainda à instituição que o pesquisador se filie (BARROS; LEHFELD, 1986, p. 100).

A escolha do tema a ser investigado deve ser feita com base em estudos preliminares, fundamentados nas informações bibliográficas pertinentes, nas inquietações do pesquisador sobre os problemas referentes ao assunto, nas conversas com outros pesquisadores sobre o estudo que se pretende realizar.
Bastos e Keller (2000) defendem a pesquisa bibliográfica como preliminar às pesquisas de campo ou às de laboratório.
Por exemplo: se seus alunos são indisciplinados e você não sabe por que isso acontece, o primeiro passo, antes de qualquer pesquisa in loco, é a elaboração de um projeto para pesquisar, aprofundar-se teoricamente sobre o assunto. Neste caso, o tema a ser pesquisado é: INDISCIPLINA NA ESCOLA.
Posteriormente, diante de um novo olhar, agora com mais cientificidade, você pode realizar uma nova pesquisa, com um tema mais específico: A INDISCIPLINA EM SALA DE AULA DOS ALUNOS DA 3ª SÉRIE DA ESCOLA ESTADUAL LEONILLA MARINHO, NA CIDADE DE MANAUS/AM.

3 Problema

Entende-se como um problema a questão que ainda não foi solucionada, objeto de muita discussão e de estudo. É oriundo da observação dos fatos no contexto de uma realidade.
A problematização é aquilo que um pesquisador visualiza em sua amplitude numa determinada realidade, ou seja, não tem um problema específico, mas inúmeros objetos a pesquisar. Para se chegar ao problema é recomendável ao educador ter bastante claro qual o tema que irá pesquisar. Daí surge a formulação de perguntas ao tema.
Um problema aparece em decorrência de um aprofundamento do tema que é sempre individualizado e específico. Responde à pergunta: o que se quer investigar?
Diante disso, pode-se destacar as seguintes CARACTERÍSTICAS:
1.Deve ser sempre formulado como pergunta. Por exemplo: Qual a concepção dos alunos do curso do magistério sobre o estágio curricular? Quais os fatores que dificultam a aplicação do estágio?
2.Deve ser claro e preciso;
3.Deve ser bem delimitado. Um problema amplo e sem delimitação dificulta a sua investigação. Por exemplo: o que pensa a sociedade sobre a evasão escolar?
4.Deve ser exeqüível à competência do pesquisador. Por exemplo: um assunto complexo requer conhecimento e capacidades mentais de um pesquisador experiente e não de um pesquisador principiante;
5.Deve ser coerente quanto à disponibilidade de recursos. Por exemplo: uma pesquisa que requer os recursos de uma universidade, não poderá ser feita com os parcos recursos financeiros de um estudante.
Segundo Rúdio (2001, p.95-96), para a escolha de um problema de forma objetiva, deve-se responder às seguintes indagações:
a) este problema pode realmente ser resolvido pelo processo de pesquisa científica?
b) o problema é suficientemente relevante a ponto de justificar que a pesquisa seja feita ( se não é tão relevante, existe com certeza, outros problemas mais importantes que estão esperando pesquisas para serem resolvidos)?
c) trata-se realmente de um problema original?
d) a pesquisa é factível?
e) ainda que seja “bom” o problema é adequado para mim?
f) pode se chegar a uma conclusão valiosa?
g) tenho condições para planejar e executar um estudo desse tipo?
h) os dados que a pesquisa exige, podem realmente ser obtidos?
i) há recursos financeiros disponíveis para a realização da pesquisa?
j) terei tempo de terminar o projeto?
k) serei persistente?

3.1 Delimitação e
formulação do problema

Para que o pesquisador delimite e formule o problema com clareza necessária, é indispensável que o pesquisador se apóie na sua prática cotidiana e nas vivências dos problemas decorrentes do seu desempenho profissional.
É importante salientar certa diferença entre delimitação e formulação do problema.
a) delimitação do problema significa um encaminhamento com maior clareza da teoria que alimenta o esforço do pesquisador. A delimitação pode ser feita pelo pesquisador com pouco ou nenhum contato com o meio que interessa investigar, mas para isso é indispensável ter clareza metodológica e experiência no campo de pesquisa. Delimita-se na medida em que o investigador determina o problema e as pessoas no estudo em diferentes níveis de participação das mesmas;
b) formulação de um problema consiste em expor de maneira objetiva, compreensível e operacional, a dificuldade que o pesquisador pretende resolver, explicitando o seu campo e apresentando suas características.
A delimitação do problema é bem mais específica que a formulação. Uma boa formulação do problema requer a devida articulação com os enfoques teóricos. Seja qual for o ponto de vista teórico que oriente o trabalho do pesquisador algumas obrigações são elementares: a precisão e a clareza são essenciais para a exatidão dos estudos.

4 Justificativa

A justificativa de um projeto é a defesa de sua exeqüibilidade. Nela se expõe de forma convincente a relevância da pesquisa. Através dela o pesquisador irá demonstrar o porquê de estar estudando o assunto.
Sua redação não deve ser extensa procurando necessariamente, apontar, segundo Monteiro (1998, p.32) a existência de uma “[...] lacuna na chamada construção do saber, que pode ser preenchida com o projeto a ser desenvolvido”.
Recomenda ainda que: “o importante é que a linguagem seja clara e objetiva e que as informações se complementem e dêem unidade ao texto que se está apresentando” (MONTEIRO, 1998, p. 33).
A justificativa se faz importante à medida que mostra as razões da preferência pelo assunto escolhido e sua importância face a outros temas.
Para Gil (1991, p.145) uma pesquisa de natureza científica ou acadêmica, deve indicar em sua justificativa os seguintes dados:

O estágio de desenvolvimento dos conhecimentos referentes ao tema;
As contribuições que a pesquisa pode trazer com vistas a proporcionar respostas aos problemas propostos ou ampliar as formulações teóricas a esse respeito;
A relevância social do problema a ser investigado;
A possibilidade de sugerir modificações no âmbito da realidade abarcada pelo tema.

Diz ainda que:

No caso de pesquisas de natureza prática, a justificativa deve considerar os objetivos da instituição e os benefícios que os resultados da pesquisa poderão proporcionar. Os cuidados com a elaboração da justificativa devem ser redobrados no caso de pesquisas para as quais se solicita algum tipo de financiamento, já que a entidade financiadora necessita de boas razões para justificar o investimento (GIL, 1991, p. 145).

4.1 Operacionalizando a justificativa

A elaboração de uma justificativa não é tarefa tão fácil como se imagina. Faz-se necessário que o pesquisador tenha um certo conhecimento preliminar acerca do tema que norteia o objeto a ser investigado, para demonstrar a relevância do projeto de pesquisa. Neste sentido, é importante responder às seguintes indagações: Qual a importância do tema escolhido? Qual a sua relevância para as pessoas envolvidas? Qual a sua provável contribuição para a área de estudo em questão e para as áreas afins? E a sua contribuição social? Tudo isso é primordial para que o seu projeto consiga respeitabilidade científica diante da pesquisa que será realizada.
Bagno (2001, p.29) expõe sua experiência:

A justificativa é a defesa que você faz de seu projeto. Nela você apresenta argumentos que convençam as pessoas de que aquele trabalho é digno de interesse e de... financiamento! Os órgãos que dão verbas para a realização de pesquisas querem saber minuciosamente por que aquele projeto merece investimento. Já me aconteceu de preparar um projeto lindíssimo e receber de volta um parecer com as palavras: justificativa insuficiente. Caprichei no título, detalhei os objetivos, mas não fui convincente o bastante na justificativa.

A diferença da justificativa para fundamentação teórica é que na redação da primeira não existem citações ou explicações no plano teórico sobre o assunto. Há a necessidade da capacidade de convencimento do pesquisador sobre a importância do seu trabalho. Acerca disso, Marconi e Lakatos (2000, p. 219) afirmam:

A justificativa difere da revisão da bibliografia e, por este motivo, não apresenta citações de outros autores. Difere, também, da teoria de base, que vai servir de elemento unificador entre o concreto da pesquisa e o conhecimento teórico da ciência na qual se insere. Portanto, quando se trata de analisar as razões de ordem teórica ou se referir ao estágio de desenvolvimento da teoria, não se pretende explicitar o referencial teórico que se irá adotar, mas apenas ressaltar a importância da pesquisa no campo da teoria.

5 Hipótese ou questões norteadoras

Antes de se iniciar o assunto em questão, seria necessário uma interpretação acerca da palavra HIPÓTESE. Para Triviños (1987, p.105): “A hipótese envolve uma possível verdade, um resultado provável. É uma verdade pré-estabelecida, intuída, com o apoio de uma teoria”. Uma hipótese é a provável solução do problema identificado. É em função da hipótese ou hipóteses estabelecidas, que se estrutura todo o caminho a ser percorrido pelo pesquisador. Ou seja, é uma suposição possível acerca do porquê do problema, na tentativa de uma explicação preliminar do mesmo, que necessitará de uma comprovação na pesquisa. Neste sentido, a hipótese pode ser uma suposição tanto negativa quanto positiva.

5.1 Importância das hipóteses

Segundo Kerlinger apud Marconi e Lakatos (2000), os fatores que demonstram a importância das hipóteses são:
a) as hipóteses são “instrumentos de trabalho” da teoria, pois novas hipóteses podem dela ser deduzidas;
b) podem ser testadas e julgadas como provavelmente verdadeiras ou falsas;
c) constituem instrumentos poderosos para o avanço da ciência, pois sua comprovação requer que se tornem independentes dos valores e opiniões dos indivíduos;
d) dirigem a investigação, indicando ao investigador o que procurar ou pesquisar;
e) pelo fato de serem comumente formulações relacionais gerais, permitem ao pesquisador deduzir manifestações empíricas específicas, com elas correlacionadas;
f) desenvolvem o conhecimento científico, auxiliando o investigador a confirmar (ou não) sua teoria,
g) incorporam a teoria (ou parte dela) em forma testável ou quase testável.

5.2 Função das hipóteses

Conforme Jolivert apud Marconi e Lakatos (2000), a função das hipóteses é:

a) dirigir o trabalho do cientista, constituindo-se em princípio de invenção e progresso, à medida que ajuda de fato a imaginar os meios a aplicar e na utilização dos métodos no prosseguimento da pesquisa e na tentativa de se chegar à certeza;
b) coordenar os fatos já conhecidos, ordenando os materiais acumulados pela observação.


6 Objetivos: Lógica e Formulação

É um dos tópicos mais importantes de um projeto de pesquisa. Pois é a resposta às pretensões do pesquisador com a pesquisa. Corresponde a pergunta “para quê” ou seja, para que pesquisar a temática escolhida?
A lógica para a formulação dos objetivos de pesquisa deve ser coerente com o tema e o problema do projeto de pesquisa. Comumente os iniciantes na pesquisa confundem os objetivos de caráter investigativo com objetivos didáticos, de planos de ensino. Quanto à formula­ção, essencialmente, os objetivos devem ser elaborados com verbos no infinitivo, podendo ser organizados em duas partes: objetivo geral e específico.

Os objetivos ao serem formulados devem ser capazes de serem atingidos.
Não podemos esquecer que os objetivos devem vir sempre no infinitivo.

a) Objetivo Geral

O projeto de pesquisa científica deve ter verbos que indiquem a “ação intelectual”, cujo produto final possa ser verificado. Neste sentido, o objetivo geral exige uma articulação com os objetivos específicos. De preferência, elabora-se um objetivo geral mais abrangente que possa ter sustentação nos objetivos específicos.
Compreender, analisar, avaliar, conhecer, investigar, desenvolver são exemplos de verbos que podem caracterizar o objetivo geral.
Exemplo - Analisar a evasão escolar nas escolas municipais de Manaus-Am.

b) Objetivos Específicos

As ações intelectuais já elaboradas devem ser divididas em partes possíveis para resolvê-las. Assim, uma ação expressa em objetivo geral será transformada em vários objetivos específicos que forem necessários para o estudo e a solução satisfatória do objetivo geral.
Conforme Santos (2001), sugere-se a montagem de objetivos específicos em quatro momentos:
1.Levantamento dos aspectos componentes importantes do problema;
2.Transformação de cada um dos aspectos escolhidos em um objetivo;
3.Verificação da suficiência dos objetivos específicos propostos;
4.Decisão quanto à melhor seqüência lógica.

Identificar, selecionar, classificar, sistematizar, comparar, relacionar são exemplos de verbos que podem caracterizar os objetivos específicos.
Exemplo:
-Selecionar as escolas municipais de Manaus-Am com maior índice de evasão escolar;
-Identificar os fatores da evasão escolar nas escolas municipais de Manaus-Am;
-Sistematizar as conseqüências da evasão escolar para os alunos evadidos.

7 Referencial Teórico (marco ou base teórica)

Todo projeto de pesquisa deve conter as premissas ou pressupostos teóricos sobre os quais o pesquisador fundamentará sua interpretação. Um bom marco teórico não é aquele que contém muitas páginas e sim o que trata com profundidade os aspectos relacionados com o problema, e vincula com lógica e coerentemente conceitos e proposição existente em estudos anteriores.

Neste sentido, Minayo (1993, p.18) assim estabelece:
“A teoria é construída para explicar ou compreender um fenômeno, um processo ou um conjunto de fenômenos e processos. [...] Nenhuma teoria, por mais bem elaborada que seja, dá conta de explicar todos os fenômenos e processos. [...] Teorias, portanto, são explicações parciais da realidade”.

Uma vez estabelecido o problema, as hipóteses, a justificativa e os objetivos, o passo seguinte consiste em sustentar teoricamente o estudo, etapa que alguns autores denominam de marco ou base teórica. Isso implica analisar e expor as teorias, os enfoques teóricos, as pesquisas e os antecedentes em geral que se considerem válidos para o correto enfoque do estudo.

7.1 Funções do marco teórico

O marco teórico cumpre diversas funções dentro de uma pesquisa, entre as quais destacam-se as seguintes:
a)ajuda a prevenir erros que já tenham sido cometidos em outros estudos;
b)amplia o horizonte do estudo e guia o pesquisador para que se centre em seu problema;
c) inspira novas linhas e áreas de pesquisa.

7.2 Etapas da elaboração
do marco teórico

A elaboração do marco teórico compreende duas etapas principais:
a) a pesquisa da literatura correspondente;
b) a adoção de uma teoria com o desenvolvimento por uma perspectiva teórica.
Dessa forma, há alguns cuidados que devem ser levados em consideração na elaboração do marco teórico:
a) não oferecer referências falsas;
b) não inventar referências bibliográficas;
c) fazer menção somente àqueles livros que você realmente utilizou para pesquisar;
d) não atribuir a um autor uma idéia que pertence a outro;
e) observar o caráter histórico de contextualização da obra consultada;
f) usar sempre as informações das edições mais recentes:

8 Metodologia

8.1 Conceito

A Metodologia como parte integrante de um projeto de pesquisa se configura nos passos por onde o pesquisador deve caminhar para orientar a condução da investigação científica. Nesta compreensão, Thiollent (2000, p.25) afirma: “a metodologia lida com a avaliação de técnicas de pesquisa e com a geração ou a experimentação de novos métodos que remetem aos modos efetivos de captar e processar informações e resolver diversas categorias de problemas teóricos e práticas da investigação”.
A Metodologia, no projeto de pesquisa, nas ciências sociais, em que se insere a edu­cação, deve ter um caráter qualitativo referente às abordagens metodológicas. Esse caráter deve ser resultante da corrente filosófica episte­mológica que fundamenta a pesquisa.
Neste sentido, devem-se quebrar as barreiras da quantificação ou qualificação da pesquisa, vistas simploriamente sem uma conexão com o todo maior da pesquisa, pois o grande pressuposto da abordagem qualitativa está em ver o mundo e o homem de forma dinâmica, complexa, viva, em movimento com a concreticidade e a subjetividade que a eles pertencem.
Isso significa, por exemplo, que determinadas pesquisas necessitam da coleta de dados quantitativos, principalmente na fase exploratória, mas o tratamento de análise desses dados é realizado de forma qualitativa. O importante é o procedimento teórico-epistemológico (gnosiológico) que fundamenta a pesquisa, com a visão ontológica que o pesquisador se propõe a investigar.
Tais perspectivas são exploradas por Santos e Gamboa (2000, p.88-89):

As alternativas devem ser colocadas no nível das grandes tendências episte­mológicas que fundamentam não somente as técnicas, os métodos e as teorias, mas também a articulação desses níveis entre si e desses níveis com seus pressupostos epistemológicos [...] Quando recuperamos o todo maior (neste caso, o enfoque epistemológico), remetemos a opção e a discussão sobre as alternativas da pesquisa não à escolha de algumas técnicas ou métodos, mas aos enfoques epistemológicos que, como um todo maior, articulam outros elementos constitutivos por meio da construção de uma lógica interna (a própria lógica da pesquisa) necessária para preservar o rigor e o significado do processo científico.

Principais Métodos
Técnicas das Ciências Sociais

1. Método Indutivo, cuja corrente filosófica é o empirismo, sendo fortemente utilizado pelo positivismo;
2. Método Hipotético-dedutivo, cuja corrente filosófica é o neopositivismo;
3. Método Fenomenológico, ou abordagem fenomenológica, cuja corrente filosófica é a fenomenologia;
4 Método Dialético, cuja corrente filosófica é o materialismo dialético.

Observação Direta Intensiva

Compreende nas técnicas de observação e entrevista. A observação, conforme Marconi e Lakatos (2000) pode ser classificada da seguinte forma:
a) Quanto aos meios: assistemática e sistemática.
b) Quanto a participação do observador: não participante e participante.
c) Quanto ao número de observações: individual e em equipe.
d) Quanto ao lugar: na vida real (campo) e em laboratório.

Assistemática – Também conhecida como observação não estruturada, caracteriza-se pela observação a ser realizada no decorrer do cotidiano, de forma livre. Cabe ao observador estar atento aos fenômenos para serem devidamente anotado para posterior análise.

Sistemática – Conhecida também como estruturada, controlada, planejada. Nela, o pesquisador se instrumentaliza objetivamente para colher da realidade aquilo que lhe interessa, que compõe tanto o seu objeto quanto os objetivos a serem alcançados na pesquisa, através de quadros, anotações, escalas etc.
Na observação sistemática ou estru­turada (observação direta), a coleta e registro de eventos observados são previamente definidos. Observador, munido de uma listagem de comportamento, registra a ocorrência destes comportamentos em um determinado período de tempo, classificando-os em categorias ou caracterizando-os por meios de sinais.
O registro dos dados pode ocorrer no ato, observando-se diretamente, no momento em que ocorrem. Deste modo, pode-se observar os eventos no contexto em que se dão e observar a relação com outros atos e as circunstâncias que influenciaram sua ocorrência, e permitir uma análise mais compreensiva dos dados. Pode-se também filmar (observação indireta) os acontecimentos e extrair os dados de filmes e vídeos.

Não participante – O pesquisador mesmo em contato com a realidade investigada, não pode integrar-se a ela. Observa o fato ou fenômeno, porém não participa do mesmo. Também é conhecida como observação passiva.

Participante – Nesta técnica, o pesquisador integra-se à realidade investigada, seja porque ele já pertence a esta (observação participante natural) ou quando estranho no grupo, a ser investigado, integra-se a este com o objetivo de colher suas informações (observação participante artificial).

Individual – Ocorre quando somente um pesquisador observa o fenômeno a ser estudado.

Em equipe – Quando existe um grupo de pesquisadores para investigar o fenômeno social, sob diversos aspectos, ou ainda sob um único aspecto, havendo a correção entre os pesquisadores das distorções na observação realizada.

Na vida real – A observação é feita no próprio ambiente da realidade social, onde os dados são registrados conforme a realidade for se manifestando.

Em laboratório – A observação da realidade investigada é feita em condições de controle, através de instrumentos previamente organizados pelo pesquisador.

Já a entrevista pode ser:
Padronizada ou estruturada – quando o entrevistador segue um roteiro previamente elaborado, sem liberdade de adaptação das perguntas ora construídas. As informações colhidas sobre fatos e opiniões devem constituir-se em indicadores de variáveis que se pretende explicar. É, pois um diálogo preparado com objetivos definidos e uma estratégia de trabalho.
Alguns riscos de erros podem ser minimizados com a explicação prévia dos objetivos e fins que se almeja com a entrevista, com a escolha do local e horário convenientes ao entrevistado e com a criação de um clima de colaboração e confiança.

Despadronizada ou não estruturada – quando o entrevistador, através de perguntas abertas, pode criar no contexto da entrevista, através de uma conversa informal. O entrevistador pode usar um roteiro-base (entrevista focalizada), ou perguntas específicas (entrevista clínica), ou ainda este pode expressar-se livremente no decorrer da entrevista, incentivando o entrevistado a responder sobre os assuntos pertinentes à entrevista (entrevista não dirigida).
Para uma coleta plena das informações, o entrevistador deve manter-se na escuta ativa e com a atenção receptiva a todas as informações prestadas, quaisquer que sejam elas, intervindo com discretas interrogações de conteúdo ou com sugestões que estimulem a expressão mais circunstanciada de questões que interessem à pesquisa.
A entrevista não-diretiva tem vantagens e limites que devem ser ponderados pelo pesquisador antes de definir-se pelo seu uso.

Painel – “Consiste na repetição de perguntas, de tempo em tempo, às mesmas pessoas, a fim de estudar a evolução das opiniões em períodos curtos. As perguntas devem ser formuladas de maneira diversa, para que o entrevistado não distorça as respostas com essas repetições” (MARCONI; LAKATOS, 2002, p.94).

Observação Direta Extensiva
É realizada através de dois meios: o questionário e o formulário. O primeiro é uma interlocução planejada, constituído por um conjunto de perguntas pré-elaboradas, ordenadas e pré-testadas, seqüencialmente dispostas em itens que constituem o tema da pesquisa, com o objetivo de suscitar as respostas dos informantes, sendo desnecessária a presença do pesquisador na produção dessas respostas.
Os questionários são, em geral, testados: respondidos por alguns presumíveis informantes, para se identificar problemas de linguagem, de estrutura lógica ou das demais circunstâncias que podem prejudicar o instrumento. Somente após esse procedimento é que o mesmo pode ser aplicado à população investigada.
Uma carta de esclarecimento da pesquisa deve acompanhar o questionário para incentivar a devolução do mesmo. Em geral, são devolvidos cerca de 25% dos questionários aplicados.
As vantagens e desvantagens do questio­nário são apresentadas por Marconi e Lakatos (2002) da seguinte forma:

Vantagens do questionário
1. Economia de tempo, viagens ao campo de pesquisa e pessoal para aplicação do questionário;
2. Obtenção de grande número de dados e pessoas simultaneamente, com respostas mais rápidas e precisas;
3. Abrangência de uma grande área geográfica;
4. Maior liberdade e segurança nas respostas, devido ao anonimato do pesquisado, que possui maior tempo e conforto em responder ao questionário;
5. Menor risco de distorção pela não influência do pesquisador;
6. Uniformidade na avaliação;
7. Obtenção de respostas que materialmente seriam inacessíveis.

Desvantagens do questionário
1. Não abrange uma população analfabeta;
2. Percentagem pequena de retorno, muitas vezes tardio;
3. Muitas perguntas não são respondidas;
4. O pesquisador não pode tirar dúvidas quanto às perguntas não compreendidas;
5. A dificuldade de compreensão, por parte dos informantes, leva à uniformidade aparente;
6. Na leitura das questões, pode haver influência entre elas;
7. Nem sempre quem recebe o questionário é quem o responde;
8. Falta de controle na situação de resposta do pesquisado;
9. Exige um universo mais homogêneo.

Quanto ao formulário há as seguintes considerações a se tecer, conforme Marconi e Lakatos (2002):

Enquanto no questionário, o pesquisador não participa do momento de resposta às questões formuladas para o pesquisado, no formulário o pesquisador, face-a-face com o pesquisado, realiza os questionamentos e os preenche com os dados e as respostas fornecidas oralmente pelo pesquisado.

Vantagens do formulário.
1. Utilizado em toda e qualquer população, inclusive a analfabetos;
2. A presença do pesquisador pode esclarecer sobre a pesquisa e incompreensões do pesquisado;
3. Flexibilidade de adaptação quanto às perguntas que podem ser reformulados de acordo com a realidade;
4. Obtenção de dados mais complexos e úteis;
5. Facilidade de aquisição representativa de informantes;
6. Uniformidade de símbolos utilizados.

Desvantagens do formulário
1. A presença do pesquisador pode proporcionar menos liberdade nas respostas, risco de distorção e insegurança nas respostas (pela ausência do anonimato).
2. Mais demorado, pois é aplicado a uma pessoa por vez, que pode inclusive se encontrar em locais distantes.
3. Menor prazo para responder aos questionamentos, prejudicando o pensamento do pesquisado, podendo inclusive haver invalidação das respostas.

Testes
“São instrumentos utilizados com a finalidade de obter dados que permitam medir o rendimento, a competência, a capacidade ou a conduta dos indivíduos, em forma quantitativa.” (MARCONI; LAKATOS, 2002, p.125).

Análise de Conteúdo

Trata-se da análise metodológica de informações em documentos ou qualquer outro tipo de comunicação que foi documentada. A técnica se aplica à análise de textos escritos ou de qualquer comunicação (oral, visual, gestual) reduzida a um texto ou documento, permitindo que os conteúdos descritivos sejam sintetizados.
O objetivo da análise de conteúdo é compreender criticamente o sentido das comunicações, seu conteúdo manifesto ou latente, as significações explícitas ou ocultas. Ou seja, o conteúdo deve ser analisado de forma crítica e o pesquisador deve avaliar tanto as mensagens explícitas como as implícitas dos textos, aprofundando o conhecimento acerca do objeto a ser investigado.

História de Vida
Introduzida pela Escola de Chicago (1920), tem sua relevância em coletar informações de vida de um ou mais informantes. Tais informações podem ser obtidas através de documentos (memórias, crônicas, relatos biográficos) ou pelas percepções do próprio pesquisador sobre a sua vida (autobiográfica).
Na forma autobiográfica o autor relata suas percepções pessoais, os sentimentos íntimos que marcaram a sua experiência ou os acontecimentos vividos no contexto da sua trajetória de vida. Outra forma dos relatos de vida é a psicobiografia, onde o autor se situa no interior de uma trama de acontecimentos aos quais atribui uma significação pessoal e diante dos quais assume uma posição particular. A psicobiografia reúne informações tanto sobre fatos quanto sobre o significado de acontecimentos vividos que forjaram os comportamentos, a compreensão da vida e do mundo da pessoa.
O objeto a ser investigado pode ou não ser um informante, pois através da história de vida, verifica-se, sobretudo, aspectos relevantes da realidade social, o contexto da vida do informante, onde ele assume o papel principal (psicobiografia). As afirmações ou relatos podem ser uma ponte para a explicação de um dado fenômeno social.
Após a explicação dos principais métodos de abordagem, de procedimentos e das técnicas de pesquisa, já se pode relacionar os PASSOS PRINCIPAIS na construção redacional, da primeira parte da metodologia, num projeto de pesquisa.

1. Abordar o enfoque filosófico e epistemológico que embasa a pesquisa, definindo o método de abordagem diante do problema a ser investigado;
2. Apresentar os procedimentos metodológicos que vão dar conta da pesquisa, diante da abordagem ora definida;
3. Expor as técnicas de pesquisa que serão desenvolvidas no decorrer da práxis investigatória, diante dos dados a serem coletados.

Todos esses três passos deverão ser explicados e inter-relacionados na metodologia, devendo haver uma coerência interna com os demais itens do projeto. Em seguida, o pesquisador estabelece a população e a amostra a ser delimitada na metodologia.

Formas de coleta de dados

Esta parte da apostila trata da coleta de dados inter-relacionada com determinados métodos procedimentais e técnicas de pesquisa, que podem ser utilizados para que a coleta seja definida na metodologia.

Coleta de Dados Quantitativos
“A coleta de dados é a etapa da pesquisa que exige uma grande quantidade de tempo e trabalho para se reunir as informações indispensáveis à comprovação da hipótese. Pressupõe a organização criteriosa da técnica e a confecção de instrumentos adequados de registro e leitura dos dados colhidos em campo” (CHIZZOTTI, 2001, p.51).

Continuando o autor, observa que a definição da técnica e a utilização do instrumento mais adequado à pesquisa não são arbitrárias. Estão conexas com as hipóteses que se quer comprovar, com os pressupostos que são assumidos e com a análise que se fará do material coletado. As técnicas e os instrumentos decorrem pois, de decisões que são tomadas no início da pesquisa, com a formulação do problema a ser investigado.

Coleta de Dados Qualitativos
No que concerne a coleta de dados no âmbito da pesquisa qualitativa, recorremos novamente a Chizzotti (2001, p. 89):

No âmbito da pesquisa qualitativa os dados são coletados interativamente, num processo de idas e voltas, nas diversas etapas da pesquisa e na interação com seus sujeitos.
São inúmeros os instrumentos de coleta de dados, entre eles temos: a) a observação participante; b) a entrevista não diretiva; c) a história de vida; d) pesquisa-ação e pesquisa-intervenção; estudo de caso.
Os dados qualitativos deverão ser validados segundo alguns critérios: fiabilidade (independência das análises meramente ideológicas do autor), credibilidade (garantia de qualidade relacionada à exatidão e quantidade das observações efetuadas), constância interna (independência dos dados em relação a aciden­talidade, ocasionalidade etc.) e transferibilidade (possibilidade de estender as conclusões a outros contextos.

Análise de conteúdo
A análise de conteúdo é um método de tratamento e análise de informações, colhidas por meio de técnicas de coleta de dados, consubstanciadas em um documento. A técnica se aplica à análise de textos escritos ou de qualquer comunicação (oral, visual, gestual) reduzida a um texto ou documento.
O objetivo da análise de conteúdo é compreender criticamente o sentido das comunicações, seu conteúdo manifesto ou latente, as significações explícitas ou ocultas.

Pesquisa-ação e pesquisa-intervenção
A pesquisa-ação se propõe a uma ação deliberada visando uma mudança no mundo real, comprometida com um campo restrito, englobado em um projeto mais geral e submetendo-se a uma disciplina para alcançar os efeitos do conhecimento.
A tendência das pesquisas ativas procura ultrapassar a pesquisa-ação para assumir uma intervenção psicossociológica no nível da terapia de grupo ou no âmbito da mudança organizacional de empresa ou de departamentos.


Estudo de caso
O estudo de caso é uma caracterização abrangente para designar uma diversidade de pesquisas que coletam e registram dados de um caso particular ou de vários casos a fim de organizar um relatório ordenado e crítico de uma experiência.

O desenvolvimento do estudo de caso supõe 3 fases:
a) a seleção e delimitação do caso
A delimitação deve precisar os aspectos e os limites do trabalho a fim de reunir informações sobre um campo específico e fazer análise sobre objetos definidos a partir dos quais se possa compreender uma determinada situação. Quando se toma um conjunto de casos, o conjunto deles deve cobrir uma escala de variáveis que explicite diferentes aspectos do problema.

b) o trabalho de campo
As informações são documentadas, abrangendo qualquer tipo e informação disponível, escrita, oral, gravada, filmada que se preste para fundamentar o relatório do caso que será, por sua vez, objeto de análise crítica pelos informantes ou por qualquer interessado.

c) a organização e redação do relatório
O relatório poderá ter um estilo narrativo, descritivo, analítico, ser ilustrado ou não, filmado fotografado ou representado. Seu objetivo é apresentar os múltiplos aspectos que envolvem um problema, mostrar sua relevância, situa-lo no contexto em que acontece e indicar as possibilidades de ação para modificá-lo.

Etapas da Pesquisa Qualitativa
A pesquisa qualitativa objetiva, em geral, provocar o esclarecimento de uma situação para uma tomada de consciência pelos próprios pesquisados dos seus problemas e das condições que os geram, a fim de elaborar os meios e estratégias de resolvê-los.
O processo da pesquisa qualitativa não obedece a um padrão paradigmático. Hä diferentes possibilidades de programar a execução da pesquisa. Vale muito o trabalho criativo do pesquisador e dos pesquisados.
Pode-se estabelecer algumas etapas de trabalho para se chegar à descoberta das questões prioritárias e à ação mais eficaz para transformar a realidade. Algumas pesquisas descritivas se limitam a revelar os problemas, as avaliativas descrevem os problemas e trabalham os encaminhamentos necessários e as interventivas objetivam organizar uma mudança deliberada nas situações indesejadas.


1ª. Fase: a determinação da pesquisa
Antes de se iniciar qualquer pesquisa, é necessária uma preparação em que se preveja as negociações prévias, o pessoal, os objetivos que se tem em vista, a área de abrangência e o conjunto de estratégias para se identificar os problemas ou necessidades prioritárias.

2ª. Fase: a definição da pesquisa
- elaboração das hipóteses explicativas dos problemas identificados;
- definição do campo e do pessoal necessário;
- coleta dos dados;
- análise e síntese dos dados coletados;
- formulação sintética dos principais problemas identificados;
- discussão e análise dos problemas com os envolvidos

3ª.Fase: estratégia de ação
- traçar com os envolvidos uma estratégia de ação que responda aos problemas encontrados;
- elaborar os dispositivos e técnicas de discussão da estratégias escolhidas;
- execução das estratégias escolhidas;
- avaliação dos resultados;
- relatório crítico e análise final dos resultados conseguidos.

Conceito e significado
de população e amostra

O objetivo de toda a investigação científica é propor generalizações. Todavia, como normalmente não é possível analisarmos a população por inteiro, lançamos mão dos procedimentos de amostragem, cujas técnicas devem ter condições de representar adequadamente a população de onde se originou. Somente, a partir de uma amostra representativa de uma população é que se pode generalizar resultados.

Conceito
Por população ou universo percebemos o conjunto de objetos ou indivíduos que apresentam todos, pelo menos uma característica em comum. Por amostra, consideramos uma parte, porção ou parcela, convenientemente selecionada da população que permite representá-la de forma consistente ( GAYA, 200-).

População ou universo – é qualquer conjunto de informações que tenham, entre sí uma CARACTERÍSTICA COMUM. Exemplo: O conjunto de TODAS as estaturas de uma determinada comunidade constitui uma população de estaturas; o conjunto de TODOS os pesos constitui uma população de pesos; o conjunto de TODAS as cores de olhos constitui uma população de cores de olhos. Enquanto que a amostra, basicamente constitui uma redução da população a dimensões menores, sem perda das características essenciais (COSTA, 1998, p. 25-26).

Uma amostra, para ser BOA, tem de ser representativa, , ou seja, deve conter EM PROPORÇÃO tudo o que a população possui QUALITATIVA E QUANTITATIVA MENTE. E tem de ser IMPARCIAL, isto é, todos os elementos da população devem Ter IGUAL OPORTUNIDADE de fazer parte da amostra


9- Cronograma de execução

O cronograma é a fase de elaboração do projeto de pesquisa, em que ocorre a organização das tarefas a serem realizadas, com a previsão temporal destas, nas diferentes etapas da pesquisa. Bagno (2001, p.40) afirma: “Como o projeto é um todo coerente, as partes que o compõem estão interligadas e dependem umas das outras. Os prazos para o cumprimento de cada etapa da pesquisa vão depender das exigências de cada tarefa”.
O pesquisador ao organizar o seu cronograma de pesquisa deve primeiro elaborar tarefas condizentes com o projeto até então, principalmente com os objetivos e a metodologia planejada, pois no cronograma as tarefas devem conter objetividade e precisão de quando serão realizadas.
O professor-orientador da pesquisa verifica se o cronograma elaborado está sendo cumprido pelo aluno-orientando (pesquisador). Cada etapa planejada serve como um “fio condutor” para o próprio pesquisador na execução da sua pesquisa. Por exemplo: se uma dada tarefa não foi cumprida, naquele determinado tempo, por que aconteceu tal imprevisto? Quais foram os motivos? Quais as conseqüências da não realização do planejado? Com isso, tanto o orientador quanto o orientando avaliam a pesquisa e a forma como ela está se desenvolvendo.
Um ponto importante é a flexibilidade do cronograma. Assim como todo o projeto de pesquisa em geral, este pode ser reformulado para garantir a fidedignidade da práxis no ato de pesquisar. Se o não cumprimento de um prazo é motivo para uma avaliação do projeto em si, em sua seriedade, muitas vezes, a realidade da pesquisa coloca o pesquisador em situações, em que as tarefas planejadas devem ser novamente elaboradas, com novas previsões de tempo. Não se espante quando isso ocorrer, é um momento de reflexão, buscando a objetividade da pesquisa.
O cronograma vai tendo o seu formato de acordo com as necessidades executórias da pesquisa, podendo cada um construir um cronograma diferente.

[1] Material para fundamentação e explicitação de Projeto de Pesquisa, disponível em : http://www1.uea.edu.br/data/categoria/posgraduacao/download/361-8.doc%20.%20%3cAcesso%20em%2010/10/2007">http://www1.uea.edu.br/data/categoria/posgraduacao/download/361-8.doc . >. Objetivo disseminar a metodologia sobre a confeçção do Projeto visando a orientação de alunos.